A bicicleta e a emancipação feminina


Senhoras de bicicleta em 1900 - HULTON ARCHIVE / GETTY IMAGES

Uma mulher nascida durante a era vitoriana deveria se casar, dar à luz bebês (de preferência meninos), entreter convidados e manter uma casa respeitável. Uma verdadeira dama, passava seus dias apertada em um espartilho sufocante, cuidando das crianças, do marido e dos criados,  e servindo como um objeto ornamental para o marido. Impedida de exercitar seu corpo e sua mente, o que levou a gerações de criaturas frágeis.

Durante o final do século XIX e início do século XX, ao andar de bicicleta,  portanto, ao saírem de suas casas conforme sua vontade e se locomover, as mulheres começaram a livrar-se destas restrições, que as mantinham ocupadas e distante do envolvimento cívico. Apesar da forte oposição dos homens, as mulheres circulavam, e a bicicleta desempenhou um papel extraordinário na emancipação feminina, tornando-se um instrumento de mudança que subverteu as suas condições de então. Pois, foi com avidez, que as mulheres agarraram os guidões, os quais lhes propiciaram  a independência dos homens para o transporte, conferindo-lhes uma incrível oportunidade para encontrar a liberdade na viagem sobre duas rodas. Elas ganharam mobilidade física, viajando além de seus bairros e ampliando seus horizontes:  reivindicar a liberdade cívica e poder votar, a autonomia corporal, dentre outros direitos que lhes eram negados.

 

"A bicicleta fez mais para emancipar mulheres do que qualquer coisa no mundo".
Susan B. Anthony - ícone feminista e reformadora social

 

Quando Anthony escreveu essas palavras, as novas mulheres da Grã-Bretanha e da América do Norte, educadas e economicamente independentes, viram a bicicleta como um instrumento de mudança e liberdade, inclusive, fazendo do ato de andar de bicicleta, uma forma de recrutamento para todo o movimento sufragista. 

 


 As bicicletas Penny Farthing eram, obviamente, extremamente difíceis de montar - e teria
sido praticamente impossível de andar se você estivesse usando um vestido longo! Foto de Agnieszka Kwiecien

 

Aproximadamente em 1885, ocorreu uma mudança importante na tecnologia da bicicleta com a bicicleta "Safety". Ao contrário das Penny Farthings com a enorme roda de pedal, a Safeties tinha uma roda de corrente, rodas de tamanho uniforme, e eram muito mais acessíveis para os leigos.

Uma bicicleta desse tipo custava tanto quanto um cavalo de carroça, três vezes mais do que uma mula ou algo da ordem de US $ 1.700 nos dias de hoje; mas, de qualquer forma, essas bicicletas, ao contrario das Penny Farthing, estavam disponíveis para as mulheres.

Durante séculos, uma senhora recatada sentaria lateralmente na sela de um cavalo, mas, para pedalar, isso não era possível. Uma dama separar as pernas para poder andar de bicicleta causava o maior grau de pânico moral em certos círculos. 

 


A bicicleta de segurança usava uma armação em forma de diamante e era muito mais fácil de andar,
tornando o ciclismo acessível a mais pessoas - embora a um preço razoável. Foto de Jonathan Cardy

 

As mulheres pedalando livremente pela cidade afrontavam muitos tradicionalistas, especialmente quando elas descobriram os bloomers (calças compridas e folgadas, que se estreitavam na altura dos tornozelos, e usadas por baixo das saias, então encurtadas).  O movimento do "vestido racional" que floresceu durante a primeira onda de feminismo encontrou uma nova força graças, de novo, à bicicleta.  Seus defensores fizeram campanha por roupas menos restritivas, abolindo-se o odiado espartilho atado e apertado, trocando-o por roupas mais simples, para uso atlético.

Contra o ciclismo, as mulheres eram publicamente  advertidas, e com freqüência, em apelos de natureza conjugal e física:  quanto a locomoção para muito longe do centro urbano; para que não perdessem a chance de serem cortejadas; contra o desenvolvimento de "rosto de bicicleta" um rosto cansado, abatido e coberto de poeira que as tornaria indesejáveis para futuros pretendentes.

 


As mulheres foram advertidas contra o desenvolvimento de "rosto de bicicleta" - um rosto cansado, abatido e coberto de poeira que tornaria-as

indesejáveis para futuros pretendentes. Esta mulher de 1895 aparentemente evitou esse terrível destino. (Hulton Archive / Getty Images)

 

Profissionais de saúde, em uma área dominada por homens, afirmavam que pela velocidade imposta pela bicicleta as mulheres teriam seu útero prejudicado pela inércia, e também, comprometida a sua sexualidade; pois a forma do selim poderia levar a estimulação, possivelmente levando a tendências masturbatórias e a destruição da sua moral. Por causa desta falácia, um selim menor e com menos amortecimento foi desenvolvido e as barras de apoio foram levantadas para uma posição menos agressiva, deixando as mulheres sentadas mais na posição vertical. A ironia seria que, neste esforço para reduzir outros prazeres potenciais, essa modificação fez a mulher ciclista andar mais fácilmente e de forma mais confortável, aumentando a adesão a este meio de transporte e a liberdade das mulheres.

Ainda assim, apesar de toda a oposição e protestos, as mulheres continuaram em frente.Em 1895 Frances Willard , notável educadora, feminista, sufragista e presidente da  União de Temperança Cristã das Mulheres, prometeu aprender a andar de bicicleta quando ela tinha 50 anos, quando  escreveu um livro sobre sua experiência triunfante: "Uma roda dentro de uma roda. Como eu aprendi a andar de bicicleta, com algumas reflexões a propósito".


 Sufragista do século XIX, Frances Willard (1839-1898), aprendendo a andar de bicicleta na cidade de Nova York. 

 

 Além das mudanças óbvias no status das mulheres, como obter o voto no início do século XX, o ciclismo provocou várias outras mudanças.: as Flappers (melindrosas, moças que, na década de 1920, usavam saias "curtas", cabelos na altura das orelhas, ouviam e dançavam provocativamente o Jazz e o Charleston, se maquiavam, bebiam e fumavam em público, dirigiam automóveis, viam o sexo como algo casual), por exemplo, não teriam aparecido sem a inspiração das mulheres ciclistas Difícil dizer que a bicicleta deu às mulheres o voto ou acabou com a opressão, mas é justo dizer que as bicicletas, mais do que qualquer outro desenvolvimento da civilização ocidental, conferiram às mulheres controle sobre sua saúde física,  propiciaram-lhes autonomia, e eventualmente, inspirou-as a reivindicar sua independência na força de trabalho.

O legado completo da bicicleta, de fato um instrumento de mudança, ainda não está escrito. O ciclismo continua a ter um impacto profundo na moda, no costume e até mesmo na lei. A bicicleta ainda é uma fonte de polêmica e desassossego.




Últimas notícias:

Manifesto do CicloBr!

Repúdio contra a lei nº 16.738, de 7 de novembro de 2017

CAMPANHA BIKE GUARANI na Aldeia Tekoá Pyau Pico do Jaraguá

Doe seu dinheiro, doe sua bike, doe seu tempo!

É hoje o Dia Mundial sem Carro! Tome uma atitude!

Venha tomar um café da manhã conosco!

Bike Help Edição Especial - Semana da mobilidade

Os atendimentos são feito por mecânicos com selo CicloBR.